Trabalho, remuneracao e possibilidades

Trabalho, remuneracao e possibilidades

O mercado para jogadores no Brasil, apesar de os dados não serem precisos, está estimado entre 10 a 15 mil postos de trabalho. Parte desses postos são empregos sazonais e bastante precários. O Brasil tem cerca de 800 clubes de futebol credenciados às subsidiárias da FIFA (DAMO, 2007). Poder-se-ia pensar que esse número é expressivo em se tratando dos postos principais de trabalho nessa indústria do espetáculo, mas algumas ressalvas devem ser feitas.

Dos 800 clubes credenciados apenas 2,5%, isto é, 20 clubes, detêm 90% da preferência dos torcedores (DAMO, 2007). Isso indica que o potencial de exploração do produto que os clubes podem vender junto ao público consumidor (torcedores) é desigual e acarreta uma redução significativa dos postos de trabalho bem remunerados. Se calcularmos que um clube possui em média 26 jogadores na sua equipe principal, teríamos em torno de 520 postos de trabalho na parte mais valorizada do mercado, isto é, os 20 principais clubes no Brasil que disputam o campeonato nacional da primeira divisão.

Os salários de jogadores no Brasil são baixos se considerarmos os sonhos de mobilidade social e econômica dos jovens, em sua maioria oriundos das camadas populares e médias. A pirâmide salarial dos jogadores profissionais no Brasil não mudou muito nos últimos oito anos. Os dados divulgados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 1999 indicavam que 51,6% dos jogadores recebiam até um salário mínimo, e 33,2% até dois salários mínimos; se somados esses percentuais podemos pensar que 84,8% dos jogadores recebiam salários até dois salários mínimos; acima de dez salários mínimos apenas 5,2% (PRONI, 2000). O ano de 2003, por exemplo, revela a seguinte distribuição: 82,41% recebem entre um e dois salários mínimos, 2,05% entre 10 e 20 e apenas 3,57% acima de 20 salários mínimos (HELAL, 1997; HELAL; SOARES; SALLES, 2005). Os dados disponibilizados em 2009 pela CBF mostram que 84% dos jogadores, de todas as divisões do futebol profissional no Brasil, recebem salários até 1.000,00 reais, 13% recebem entre 1000 e 9000 reais e apenas 3% recebem acima de 9000 reais por mês.

A pirâmide salarial do futebol brasileiro está longe de ser o oásis da riqueza ou da mobilidade econômica tão sonhada pelos jovens brasileiros. Contudo, esses dados, quando divulgados na mídia, parecem não desestimular a busca pela profissionalização no futebol. Poder-se-ia pensar que o sonho dos jovens que estão atuando nas categorias de base, de ser um “Kaká” ou qualquer outro famoso jogador que atua na Europa, está longe das estatísticas positivas de riqueza nesse mercado. Embora a Europa seja o maior destino de nossos jogadores, esse mercado não é só formado por ligas e clubes com alto potencial de remuneração econômica. O destino de muitos desses jovens são as divisões inferiores do futebol brasileiro, centros alternativos da Europa (Suécia, Grécia, Albânia, Malta, Bélgica, etc.) ou em países em que a remuneração está longe do imaginário dos altos salários do futebol.

A questão que se coloca é a seguinte: o destino da maioria dos jovens brasileiros que se dedicam intensamente a carreira de jogador seria diferente, em termos econômicos, se realizassem seus investimentos na escolarização básica? Não temos respostas e nem dados seguros no momento para dizer o que seria mais rentável economicamente em médio e longo prazo para esses jovens. A teoria social indica que a origem familiar da maioria dos atletas e a escolarização de seus pais, em termos de probabilidade, execerceriam uma forte pressão para eles permanecerem próximos aos estratos em que se encontram suas famílias na estratificação social (BOURDIEU, 1998; SCHWARTZMAN, 2004; 2006). Assim, o futebol torna-se para os membros das camadas populares e médias uma aposta que pode mudar o destino econômico do indivíduo e de sua família. Aduzido aos argumentos anteriores, a escola para as camadas populares está longe de ser o caminho da ascensão social para a maioria daqueles que completam o ensino fundamental (SEGNINI, 2000).

Devemos ter clareza que os desejos construídos culturalmente são mais potentes que as oportunidades concretas oferecidas. Toledo (2002) indica que em média, menos de 1% dos aspirantes à profissão, são aproveitados nas “peneiradas” dos clubes (teste para a seleção de atletas nas divisões de base). Em 1995, por exemplo, de 3.500 garotos que aventuraram nas peneiras do São Paulo Futebol Clube, apenas cinco foram aproveitados; no ano seguinte, apenas dois de 4.000 permaneceram no clube. Damo (2005) aponta semelhante relação candidato/vaga no Sport Club Internacional em 2004. Apesar disso é alta a demanda dos aspirantes a atletas de futebol.

Melo (2010) indica que no mercado de formação de atletas parte dos jovens podem receber, a partir dos 15 anos ou antes, salários com valores semelhantes ou superiores ao dos pais. Esse fato pode representar, aindo no momento da formação, certa mobilidade econômica e prestígio social para o jovem se comparado às ocupações mal remuneradas e pouco valorizadas dos seus responsáveis. Damo (2005, p. 269) descreve que a política do Sport Club Internacional (Porto Alegre) fixa um teto de ajuda de custo para os meninos das diferentes categorias de base: “aproximadamente 200 dólares para os meninos do Infantil, mas são raros os que dispõem desse montante como ajuda de custo; 300 para o juvenil e 400 dólares para os juniores”; mas existiriam entre esses aqueles que recebem salários altos quando apresentam maior “potencial” no esporte. Essa possibilidade pode transformar o futebol em projeto familiar de modo que as famílias de origem popular canalizem esforços e recursos para apoiar a carreira de seus filhos (RIAL, 2006). Queremos destacar, nesta seção, que parece existir uma desproporção entre as imagens de mobilidade econômica difundidas em nosso imaginário e os limites e restrições oferecidas pelo mercado do futebol no Brasil.

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