Jogadores de futebol no Brasil

Jogadores de futebol no Brasil

O futebol como espaço de identificações (locais e nacionais) estruturou-se na configuração dos Estados nacionais a partir do final do século XIX como fruto da expansão capitalista e dos projetos de modernização, nem sempre consensuais ou planejados (MANDELL, 1984; GUTTMANN, 1994; SOARES; LOVISOLO, 2003; POLI, 2006).

Se o processo de identificação coletiva pelo futebol se deu inicialmente como local de construção de sentimentos nacionais e locais, rapidamente tais sentimentos identitários se tornaram um valor agregado aos produtos e corpos no mercado dos esportes. Tais identidades, para além da produção dos sentimentos de coesão ou dissensão, podem ser transformadas em valor agregado aos produtos disponíveis no mercado (MACHADO, 2004; BARTHOLO; SOARES, 2006). O mercado entre os estados nacionais, seja pela transação de matéria prima, de produtos e de serviços especializados ou culturais, foi um espaço privilegiado de negociação e embates simbólicos e/ou econômicos entre os diferentes povos. Observe-se que as identidades são construções simbólicas e normativas, situadas relacionalmente no espaço contestado da cultura (CUCHE, 1999; MACHADO, 2004).

Nessa direção, a popularização desse esporte na América Latina se deu no cenário dos embates de classes e dos interesses de grupos em dominar politicamente as instituições esportivas. Desde cedo, o futebol anunciava-se como local estratégico para acumular capital político, como ocupação remunerada para as camadas populares e como indústria do espetáculo, na medida em que atraía multidões nas duas primeiras décadas do Séc. XX (PEREIRA, 2000). Não se pode esquecer que todo esse movimento estava ancorado nas diferentes interpretações culturais sobre os valores civilizatórios e educacionais do esporte. Esportes como o futebol em países como Argentina e Brasil e o beisebol em Cuba, além de estarem atrelados ao projeto de modernização dessas sociedades, foram percebidos como “juego[s] moderno[s] y democrático[s] que posibilitaba[n] a los jugadores jóvenes de orígenes modestos, la experiencia de la mobilidade social” (ARCHETTI, 2003, p. 260).

Nesse sentido, o futebol possibilitou que os países da América Latina participassem do mercado das nações para além do fornecimento de matéria prima. Nesse mercado transnacional das identidades nacionais, países como Brasil, Argentina e Cuba teriam se notabilizado desde cedo por exportar corpos, ritmos e comidas exóticas (ARCHETTI, 2003).

O processo de transferência e negociação de jogadores entre os principais produtores de futebolistas da América Latina e a Europa ocorreu durante boa parte do século XX. Todavia, esse processo intensificou-se no último quartel do século anterior e, nos últimos anos, o fluxo migratório aumentou, configurando uma verdadeira indústria de exportação de serviços especializados. A crescente demanda de transferências de jogadores brasileiros para o exterior é produto de vários fatores, a saber: o limite de empregabilidade do mercado do interno; os interesses competitivos e financeiros dos clubes estrangeiros com maior capital financeiro; a relação custo/benefício na importação desses serviços especializados; a formação de um corpo de empresários ávidos a realizar negócios nos diferentes países, credenciados ou não pela FIFA; e o mecanismo de solidariedade criado pela FIFA, no ano de 2001.

A criação da Lei Pelé e o caso Bosman na Europa instituem novas regras para as transações comerciais dos jogadores, e modifica o cenário de renegociação de contratos (MCGILLIVRAY; MCNTOSH, 2006). Essa mudança criou facilidades e benefícios para todos os atores envolvidos nas transações. Em outras palavras, há ganhos financeiros para todas as partes envolvidas em cada negociação: jogadores, empresários, clubes, patrocinadores, entre outros. O argumento romântico que afirma que os jogadores no passado tinham “amor à camisa” ou ficavam anos no mesmo clube por “amor ao clube” deve ser analisado a partir das novas regras e demandas do mercado.

O fluxo de jogadores para o exterior e a centralidade financeira do futebol europeu, captando jogadores dos diferentes países, são temas de algumas análises no Brasil (HELAL, 1997; PRONI, 2000; DAMO, 2005; LEONCINI; SILVA, 2005; ALCANTARA, 2006; CARVALHO; GONÇALVES, 2006; SOUTO, 2004). Em geral, as análises apontam para:

1) o problema da administração amadora e patrimonialista dos clubes brasileiros e a consequente resistência à adoção de uma administração racional;

2) a nova relação de trabalho entre clubes e jogadores com a promulgação da Lei Pelé (lei n. 9.615, de 24 de março de 1998), que extinguiu a figura jurídica do passe;

3) a centralidade da figura do empresário e do agente nessa nova configuração de mercado;

4) a limitação de postos de trabalho para jogadores no mercado brasileiro;

5) o surgimento de uma “indústria” de formação de jogadores;

6) os baixos salários em termos médios no mercado do futebol brasileiro.

Como os três primeiros itens já foram exaustivamente analisados pelos autores supracitados, nos concentraremos nos três últimos.

Note-se que as negociações de jogadores de futebol para o exterior reforçaram as estatísticas das exportações:

O negócio futebol tem peso considerável na exportação brasileira. As vendas de jogadores estão entre os serviços exportados pelo país que apresentou aumento de 34% em 2005 (cerca de US$ 6 bilhões). Esse grupo de serviços representa 40% das exportações brasileiras (toda a exportação brasileira de serviços gerou US$ 16 bilhões em 2005) (ALCANTARA, 2006, p. 299).

Esses dados constam das operações registradas no Banco Central (BC), dentro da rubrica de serviços empresariais, profissionais e outros técnicos. O fenômeno de migração de jogadores aponta para um alto grau de conectividade e integração no mercado global do futebol, mas há de se destacar que esse fenômeno faz parte de um movimento mais amplo do processo migratório e econômico entre os países pobres e os ricos a partir dos anos de 1980 (COGO, 2002; BAENINGER, 2003; HALL, 2003; DIETSCHY, 2006; FUSCO, 2006).

Esse cenário criou um tipo específico de produção de jogadores que visa prioritariamente o mercado exterior. Os jovens recrutados para os centros formadores passam a ter como meta profissional a emigração para outros países. As faixas salariais variam e há uma hierarquia de acordo com os mercados que têm mais visibilidade midiática e prestígio junto aos torcedores/consumidores. Nesse mercado global temos um modelo que possui um núcleo composto por outras camadas externas. No centro do mercado temos os países europeus – principalmente Alemanha, Itália, Inglaterra, França, Espanha e Portugal – que são o grande destino dos trabalhadores emigrantes do futebol. Ao redor desse núcleo temos respectivamente as Américas do Sul e Central, seguidas do continente africano e fechando o círculo a Oceania, Ásia e América do Norte. Este modelo está baseado no poder econômico dos clubes de futebol que contratam os atletas e no sucesso doméstico das ligas de futebol (MAGEE; SUGDEN, 2002; DABSCHECK, 2006).

Durante o período de 2003 a 2009 emigraram para o exterior 6.648 jogadores brasileiros. Desse montante, o continente europeu foi o que recebeu mais futebolistas: 3.593, número que representa 54,0% de todas as transferências realizadas para o exterior. O continente asiático foi o segundo maior importador com 23,0% das transferências, totalizando 1.528 jogadores. Com pouco mais de 10%, a América do Sul é o terceiro maior destino dos jogadores brasileiros, com 694 atletas transferidos no período. Os demais continentes não são os destinos preferidos dos brasileiros, como é demonstrado pelos números apresentados: América Central (2,8%), América do Norte (3,4%), África (1,7%), Oceania (0,6%) e os países transcontinentais (4,1%).

Se o número de jogadores que saem do Brasil todos os anos é significativo, a taxa de retorno também o é. Em 2005 saíram do País 804 jogadores, sendo 54,8% para a Europa. Durante o mesmo ano retornaram 491 atletas, dos quais 48,0% retornavam do continente europeu. Em 2006, a taxa de retorno diminuiu: dos 851 atletas que emigraram, 311 voltaram ao País. Os números de transferências de jogadores brasileiros para o mercado internacional do futebol evidenciam que esse mercado está aquecido com um aumento progressivo de negociações. No ano de 2007 foram 1085 transferências com o retorno de 489 jogadores ao mercado interno e, em 2008, um total de 1176 novos atletas se colocou no mercado internacional e 659 jogadores retornaram ao país.

Segundo estimativas da CBF, cerca de 25% dos jogadores brasileiros que emigram vão para países sem nenhuma tradição futebolística, e que o número de atletas que deixaram o país entre 1992 e 2005 teve um aumento de 392% (JACOBS; DUARTE, 2006). Mesmo aqueles que vão jogar em países periféricos ao mercado desse esporte, os salários negociados são melhores que os obtidos em clubes com baixo poder econômico no Brasil.

Jacobs e Duarte (2006) relatam a história de um jogador que recebia cerca de 730 dólares para jogar em um clube da segunda divisão do Paraná. Seu empresário conseguiu um emprego em um clube de futebol no Brunei com um salário de quatro mil dólares mensais e ainda 500 dólares de prêmio em caso de vitória ou empate de sua equipe. A transferência foi concretizada uma vez que a remuneração era oito vezes maior – nos valores da época – ao salário de sua equipe no campeonato do Paraná.

Esses dados mostram que o fluxo de emigração de jogadores brasileiros para o exterior se tornou um dos objetivos dessa “indústria” ou agência de formação profissional de jovens em nossa sociedade. Cabe ressaltar que, a ampliação dos postos de trabalho, com as novas perspectivas do mercado internacional, aumenta a demanda por jovens dispostos a ingressar no regime de treinamento nos clubes de futebol. Com isso temos uma indústria de formação de jogadores no Brasil para atender o mercado interno e externo no qual a matéria prima em geral são jovens entre os 12 e 16 anos de idade. Até aqui estamos descrevendo como o mercado do futebol se hierarquizou e se integrou, o que criou a necessidade de formação de jogadores para atender a demanda interna e externa.

Comente aqui

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados *

× Grupo WhatsApp